O julgamento de Dona Josefa.
Dona Josefa sempre foi uma cidadã
exemplar.
Temente a deus, freqüentava a igreja da
graça da salvação divina, três vezes por semana, fora os domingos quando ia com
toda família vestida com sua melhor roupa de culto. A igreja da graça da
salvação divina, de graça não tinha nada, mas Dona Josefa, que sempre foi uma mulher
de fé, acreditava cegamente na sua igreja, na bondade do pastor e na ira
divina. Seus filhos freqüentavam o culto para crianças porque filho dela não
era criado fora da lei do senhor.
A propósito, só para ilustrar bem nossa história, o pastor da igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha
nada, chamava-se silas.
Dona Josefa era casada há 15 anos. Era
analfabeta funcional e tinha três filhos que amava demais e por eles fazia de
um tudo nessa vida. Trabalhava como servente numa firma no centro e ainda fazia
faxinas em casa de família depois do expediente para ajudar no orçamento da casa. Afinal seu
marido estava desempregado a mais de dois anos por que não tinha qualificação
profissional e vivia de bicos.
Dona Josefa cumpria com suas obrigações de
fiel da igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada,
religiosamente. Ajudava nos cultos, fazia a coleta dos donativos, limpava a
igreja e a casa do pastor silas de graça porque seria pecado cobrar desse deus
e do pastor e, principalmente, comparecia todo mês com o dízimo sem esconder nem
um centavo de seus parcos rendimentos. Afinal esse deus que tudo vê poderia
lançar sobre ela sua ira, e o que Dona Josefa mais temia era arder no fogo
eterno. Além disso, ela nunca atrasava o pagamento porque a obra desse deus não
podia esperar e se ela atrasasse a multa era de 10% mais juros de 1% ao mês por
dia de atraso. Não era obrigatório o pagamento da multa e dos juros, mas esse deus
que tudo via.....
Além de contribuir sem nunca ter faltado
nem uma vezinha com o dízimo para igreja da graça da salvação divina, que de
graça não tinha nada, Dona Josefa, sempre que tinha um dinheirinho a mais, participava das correntes de oração, pagas é claro por pedido. Corrente da vida
financeira, corrente da saúde, corrente da vida profissional, corrente da
salvação, corrente da cura e corrente dos desempregados, afinal seu marido
estava desempregado a mais de dois anos e vivia de bicos como já falamos
anteriormente. Portanto Dona Josefa nunca tinha economias guardadas para uma
eventualidade.
Só para ilustrar melhor nossa estória Dona
Josefa sustentava a família de cinco pessoas com R$ 540,00 e pagava aluguel,
pois ainda não tinha alcançado a graça de ser sorteada no minha casa minha vida do Lula para ter casa própria.
Um dia, já tarde, quando Josefa chegou em
casa encontrou sua filhinha mais nova, de cinco anos de idade, ardendo em febre. Josefa como
toda mãe zelosa, preparou um chá para a filha, deu um banho morno com água
esquentada no fogão a lenha para não gastar energia elétrica, e sentou com a
filhinha adorada no colo esperando o febrão baixar orando alto para o senhor
deus. Mas a febre não baixou. Ao contrário piorou e sua princesinha começou a
vomitar. Josefa então, com a filha no colo, andou mais de 15 quadras a pé até o
postinho do jardim Maria Lúcia.
Dona Josefa esperou para ser atendida sentada
na porta com sua amada filhinha no colo, ardendo em febre, até o dia seguinte
porque não havia médico plantonista naquele dia. A via sacra realizada por Dona
Josefa já é bem conhecida pelo leitor, só conseguindo uma remoção para um
hospital público horas depois do dia raiar, então vamos pular essa parte sem
considerá-la menos importante para a história que os outros acontecimentos,
pois a mãe a esta altura já estava desesperada.
Quando sua amada filhinha finalmente
dormiu na enfermaria do Sus, Dona Josefa correu até a igreja da graça da
salvação divina, que de graça não tinha nada, e pediu encarecidamente ao pastor
que se chamava silas, que incluísse o nome de sua amada filhinha na corrente de
oração de cura para que esse deus operasse um milagre salvando a criança já
desenganada pelos médicos.
Prontamente o pastor que se chamava silas,
em quem Dona Josefa
acreditava cegamente, disse que colocaria sim e que sua amada filhinha com
certeza ficaria curada pela graça divina. Dona Josefa só precisava pagar uma
taxa de R$ 50,00 reais para entrar na corrente de oração. Desesperada disse então
ao pastor que não tinha o dinheiro no momento, mas que pagaria assim que
recebesse a primeira faxina que fizesse. Afinal ela nunca atrasara o dízimo e
esse deus com certeza sabedor da sua fidelidade para com sua igreja lhe daria
crédito.
Mesmo a contragosto o pastor que se
chamava silas, representante desse deus da igreja da graça da salvação divina,
que de graça não tinha nada, disse que só poderia colocar o nome da criança na
lista de oração de cura do dia mediante o pagamento da taxa, pois além da obra
desse deus não poder esperar, o tratamento era igual para todos, sob pena da
ira do senhor cair sobre eles.
Dona Josefa então tentou conseguir o
dinheiro emprestado de todas as formas que ela conhecia. Pediu aos vizinhos,
mas qual, eram todos mais pobres ainda que ela. Tentou algumas das casas em que
fazia faxina, mas nenhuma podia adiantar o dinheiro. Por fim, sem nunca culpar
a igreja e esse deus, cuja obra não podia esperar, sentou quietinha ao lado do
leito da filhinha amada e orou baixinho pela primeira vez na vida.
Mas esse deus, cuja obra não podia esperar,
nada pode fazer sem o pagamento adiantado pela salvação da vida da criança e
ela por fim faleceu.
Claro que a culpa era exclusiva de Dona
Josefa que não tinha os R$ 50,00 reais para pagar a oração de cura na igreja da
graça da salvação divina, que de graça não tinha nada. Claro que se talvez dona
Josefa não dependesse do Sus e pudesse pagar uma consulta e tratamento para sua
amada filhinha talvez ela ainda estivesse viva até hoje, mas isso não se tornou
relevante em nossa estória.
Dona Josefa então largou desgosto pela
vida e secou de culpa por não ter o dinheiro para salvar sua amada filhinha.
Nunca mais se recuperou, mas nunca culpou esse deus cuja obra não poderia
esperar ou a igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, e
nem o pastor que se chamava silas. Continuou devota fiel pagando religiosamente
seu dízimo na esperança do perdão divino na hora do juízo final.
Anos depois, quis o destino que dona
Josefa falecesse no mesmo dia que o pastor que se chamava silas e que chegassem
juntos diante do trono daquele deus para serem julgados.
No caminho, a pobre senhora quando viu que
estaria na presença desse deus junto com o pastor foi logo pedindo humildemente
a ele que intercedesse junto ao divino em seu nome, implorando seu perdão pela
culpa na morte da filhinha adorada.
Eis que então, depois de um fortíssimo
trovão esse deus se pronunciou:
- Quais foram os teus pecados meu filho?
Perguntou ele primeiro ao pastor que se chamava silas. Afinal de contas era ele
que divulgava sua palavra na terra, era seu representante direto na igreja da
graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, portando muito mais
importante que Dona Josefa.
O pastor que se chamava silas mais que
depressa respondeu a deus:
- Senhor! Sempre vivi de acordo com seus
desígnios. Propaguei tua palavra através da bíblia sagrada, cobrei o dízimo para
ajudar a divulgar a fé no senhor e afirmei que a vida fora da igreja é uma vida
em pecado e não tem salvação.
- Veja o caso dessa senhora aqui comigo. Não
quis contribuir com a taxa de R$ 50 reais para salvar sua filhinha doente.
Avisei a ela que se quisesse salva-la teria que pagar a contribuição porque a
obra do senhor não pode esperar, mas ela não o fez e a menina veio a falecer
por sua culpa.
- Ainda por cima senhor, desgostou da vida
e não cuidou mais de sua casa, do marido e dos filhos como manda a sua lei. O
marido a deixou por culpa dela e os filhos ficaram abandonados à própria sorte.
- Eu por minha vez senhor, nunca peguei da
igreja mais que o bispo permitiu, se tive uma vida confortável, com casa boa,
carro do ano, escola cara para meus filhos, casa na praia e lancha no estaleiro
foi porque sempre arrecadei muito na igreja da graça da salvação divina, que de
graça não tinha nada.
- Em nome de Jesus!!!!!!!!
- Em nome de Jesus respondeu o senhor! E
mandou o pastor que se chamava silas, tão devoto, direto pro céu.
A esta altura o leitor deve estar se
perguntando: - Mas esta história não era sobre o julgamento da Dona Josefa?
Peço então desculpa ao caro leitor e vamos
aos fatos, afinal você tem toda razão, o julgamento é mesmo o de Dona Josefa!
Diante dos fatos inegáveis narrados pelo
pastor tão devoto e cumpridor de seus deveres para com a igreja da graça da
salvação divina, que de graça não tinha nada, Dona Josefa passará os próximos
500 anos no purgatório, a fim de expiar sua culpa, afinal além da morte da
filhinha amada por não ter os tais R$ 50,00 reais, ela ainda foi culpada pela
dissolução de uma família que vivia dentro das leis da igreja e desse deus.
Moral da história:
- Dona Josefa infelizmente existe. Ainda não morreu, não se
chama Josefa e não mora na periferia de Rio Preto e sim numa pequena
cidade de Minas gerais, no triangulo Mineiro.
- Acreditar em deus às vezes pode nos custar muito caro;
- Essa história e completamente imoral.