segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


O julgamento de Dona Josefa.

Dona Josefa sempre foi uma cidadã exemplar.
Temente a deus, freqüentava a igreja da graça da salvação divina, três vezes por semana, fora os domingos quando ia com toda família vestida com sua melhor roupa de culto. A igreja da graça da salvação divina, de graça não tinha nada, mas Dona Josefa, que sempre foi uma mulher de fé, acreditava cegamente na sua igreja, na bondade do pastor e na ira divina. Seus filhos freqüentavam o culto para crianças porque filho dela não era criado fora da lei do senhor.

A propósito, só para ilustrar bem nossa história, o pastor da igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, chamava-se silas.

Dona Josefa era casada há 15 anos. Era analfabeta funcional e tinha três filhos que amava demais e por eles fazia de um tudo nessa vida. Trabalhava como servente numa firma no centro e ainda fazia faxinas em casa de família depois do expediente para ajudar no orçamento da casa. Afinal seu marido estava desempregado a mais de dois anos por que não tinha qualificação profissional e vivia de bicos.

Dona Josefa cumpria com suas obrigações de fiel da igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, religiosamente. Ajudava nos cultos, fazia a coleta dos donativos, limpava a igreja e a casa do pastor silas de graça porque seria pecado cobrar desse deus e do pastor e, principalmente, comparecia todo mês com o dízimo sem esconder nem um centavo de seus parcos rendimentos. Afinal esse deus que tudo vê poderia lançar sobre ela sua ira, e o que Dona Josefa mais temia era arder no fogo eterno. Além disso, ela nunca atrasava o pagamento porque a obra desse deus não podia esperar e se ela atrasasse a multa era de 10% mais juros de 1% ao mês por dia de atraso. Não era obrigatório o pagamento da multa e dos juros, mas esse deus que tudo via.....

Além de contribuir sem nunca ter faltado nem uma vezinha com o dízimo para igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, Dona Josefa, sempre que tinha um dinheirinho a mais, participava das correntes de oração, pagas é claro por pedido. Corrente da vida financeira, corrente da saúde, corrente da vida profissional, corrente da salvação, corrente da cura e corrente dos desempregados, afinal seu marido estava desempregado a mais de dois anos e vivia de bicos como já falamos anteriormente. Portanto Dona Josefa nunca tinha economias guardadas para uma eventualidade.

Só para ilustrar melhor nossa estória Dona Josefa sustentava a família de cinco pessoas com R$ 540,00 e pagava aluguel, pois ainda não tinha alcançado a graça de ser sorteada no minha casa minha vida do Lula para ter casa própria.

Um dia, já tarde, quando Josefa chegou em casa encontrou sua filhinha mais nova, de cinco anos de idade, ardendo em febre. Josefa como toda mãe zelosa, preparou um chá para a filha, deu um banho morno com água esquentada no fogão a lenha para não gastar energia elétrica, e sentou com a filhinha adorada no colo esperando o febrão baixar orando alto para o senhor deus. Mas a febre não baixou. Ao contrário piorou e sua princesinha começou a vomitar. Josefa então, com a filha no colo, andou mais de 15 quadras a pé até o postinho do jardim Maria Lúcia.

Dona Josefa esperou para ser atendida sentada na porta com sua amada filhinha no colo, ardendo em febre, até o dia seguinte porque não havia médico plantonista naquele dia. A via sacra realizada por Dona Josefa já é bem conhecida pelo leitor, só conseguindo uma remoção para um hospital público horas depois do dia raiar, então vamos pular essa parte sem considerá-la menos importante para a história que os outros acontecimentos, pois a mãe a esta altura já estava desesperada.

Quando sua amada filhinha finalmente dormiu na enfermaria do Sus, Dona Josefa correu até a igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, e pediu encarecidamente ao pastor que se chamava silas, que incluísse o nome de sua amada filhinha na corrente de oração de cura para que esse deus operasse um milagre salvando a criança já desenganada pelos médicos.
Prontamente o pastor que se chamava silas, em quem Dona Josefa acreditava cegamente, disse que colocaria sim e que sua amada filhinha com certeza ficaria curada pela graça divina. Dona Josefa só precisava pagar uma taxa de R$ 50,00 reais para entrar na corrente de oração. Desesperada disse então ao pastor que não tinha o dinheiro no momento, mas que pagaria assim que recebesse a primeira faxina que fizesse. Afinal ela nunca atrasara o dízimo e esse deus com certeza sabedor da sua fidelidade para com sua igreja lhe daria crédito.

Mesmo a contragosto o pastor que se chamava silas, representante desse deus da igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, disse que só poderia colocar o nome da criança na lista de oração de cura do dia mediante o pagamento da taxa, pois além da obra desse deus não poder esperar, o tratamento era igual para todos, sob pena da ira do senhor cair sobre eles.

Dona Josefa então tentou conseguir o dinheiro emprestado de todas as formas que ela conhecia. Pediu aos vizinhos, mas qual, eram todos mais pobres ainda que ela. Tentou algumas das casas em que fazia faxina, mas nenhuma podia adiantar o dinheiro. Por fim, sem nunca culpar a igreja e esse deus, cuja obra não podia esperar, sentou quietinha ao lado do leito da filhinha amada e orou baixinho pela primeira vez na vida.
Mas esse deus, cuja obra não podia esperar, nada pode fazer sem o pagamento adiantado pela salvação da vida da criança e ela por fim faleceu.

Claro que a culpa era exclusiva de Dona Josefa que não tinha os R$ 50,00 reais para pagar a oração de cura na igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada. Claro que se talvez dona Josefa não dependesse do Sus e pudesse pagar uma consulta e tratamento para sua amada filhinha talvez ela ainda estivesse viva até hoje, mas isso não se tornou relevante em nossa estória.

Dona Josefa então largou desgosto pela vida e secou de culpa por não ter o dinheiro para salvar sua amada filhinha. Nunca mais se recuperou, mas nunca culpou esse deus cuja obra não poderia esperar ou a igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, e nem o pastor que se chamava silas. Continuou devota fiel pagando religiosamente seu dízimo na esperança do perdão divino na hora do juízo final.

Anos depois, quis o destino que dona Josefa falecesse no mesmo dia que o pastor que se chamava silas e que chegassem juntos diante do trono daquele deus para serem julgados.
No caminho, a pobre senhora quando viu que estaria na presença desse deus junto com o pastor foi logo pedindo humildemente a ele que intercedesse junto ao divino em seu nome, implorando seu perdão pela culpa na morte da filhinha adorada.

Eis que então, depois de um fortíssimo trovão esse deus se pronunciou:

- Quais foram os teus pecados meu filho? Perguntou ele primeiro ao pastor que se chamava silas. Afinal de contas era ele que divulgava sua palavra na terra, era seu representante direto na igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, portando muito mais importante que Dona Josefa.

O pastor que se chamava silas mais que depressa respondeu a deus:
- Senhor! Sempre vivi de acordo com seus desígnios. Propaguei tua palavra através da bíblia sagrada, cobrei o dízimo para ajudar a divulgar a fé no senhor e afirmei que a vida fora da igreja é uma vida em pecado e não tem salvação.
- Veja o caso dessa senhora aqui comigo. Não quis contribuir com a taxa de R$ 50 reais para salvar sua filhinha doente. Avisei a ela que se quisesse salva-la teria que pagar a contribuição porque a obra do senhor não pode esperar, mas ela não o fez e a menina veio a falecer por sua culpa.
- Ainda por cima senhor, desgostou da vida e não cuidou mais de sua casa, do marido e dos filhos como manda a sua lei. O marido a deixou por culpa dela e os filhos ficaram abandonados à própria sorte.
- Eu por minha vez senhor, nunca peguei da igreja mais que o bispo permitiu, se tive uma vida confortável, com casa boa, carro do ano, escola cara para meus filhos, casa na praia e lancha no estaleiro foi porque sempre arrecadei muito na igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada.
- Em nome de Jesus!!!!!!!!

- Em nome de Jesus respondeu o senhor! E mandou o pastor que se chamava silas, tão devoto, direto pro céu.

A esta altura o leitor deve estar se perguntando: - Mas esta história não era sobre o julgamento da Dona Josefa?
Peço então desculpa ao caro leitor e vamos aos fatos, afinal você tem toda razão, o julgamento é mesmo o de Dona Josefa!
Diante dos fatos inegáveis narrados pelo pastor tão devoto e cumpridor de seus deveres para com a igreja da graça da salvação divina, que de graça não tinha nada, Dona Josefa passará os próximos 500 anos no purgatório, a fim de expiar sua culpa, afinal além da morte da filhinha amada por não ter os tais R$ 50,00 reais, ela ainda foi culpada pela dissolução de uma família que vivia dentro das leis da igreja e desse deus.
Moral da história:
  1. Dona Josefa infelizmente existe. Ainda não morreu, não se chama Josefa e não mora na periferia de Rio Preto e sim numa pequena cidade de Minas gerais, no triangulo Mineiro.
  2. Acreditar em deus às vezes pode nos custar muito caro;
  3. Essa história e completamente imoral.


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